sábado, 5 de maio de 2012

Atlântida

Olhava para o rosto de um homem que se ajoelhara a seu lado e sabia que, em todos aqueles anos, era isto que teria dado sua vida para ver: um rosto sem sinal de dor, nem medo nem culpa. Na forma de sua boca havia orgulho, e mais: era como se ele se orgulhasse de ser orgulhoso. As linhas angulosas de suas faces a faziam pensar em arrogância, tensão, zombaria. No entanto, o rosto não exprimia nada disso, apenas o produto final desses fatores: um olhar de determinação serena e de certeza, de uma inocência implacável, que jamais pediria nem concederia perdão. Era um rosto que nada tinha a esconder, que não fugia de nada, que não tinha medo de ver nem de ser visto, do modo que a primeira coisa que ela compreendeu a seu respeito foi a perceptividade intensa de seus olhos. Era como se a sua faculdade de visão fosse seu instrumento mais amado, e a prática da visão fosse para ele uma aventura exultante, ilimitada, como se seus olhos concedessem um valor superlativo a si próprio e ao mundo - a si próprio por sua capacidade de ver, e ao mundo por ser ele um lugar tão bom de se ver. Ele a fitava com um leve esboço de sorriso, não com um olhar de quem descobre algo, e sim de quem contempla algo conhecido - como se ele também estivesse vendo algo que esperava havia muito e que jamais pusera em dúvida.

Era este o seu mundo, pensou Dagny, era assim que os homens deveriam ser e encarar suas existências.