De Gabriela, pele quente e morena, jogada aos lençóis da cama coberta pela escuridão do quarto, deixando as pernas à mostra ao luar. Então Cecília, a qual eu chamava em silêncio. A via dormir. Por fim Beatriz, intocável. Mesmo tendo conhecido nove luas, não mais a vejo. Mas a sinto, por de trás da luz forte que me ofusca a visão, e por onde ela se esconde. Pode me ver, mas eu não a posso.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
terça-feira, 5 de junho de 2012
Ouse
Ouse, ouse... ouse tudo!!
Não tenha necessidade de nada!
Não tente adequar sua vida a modelos,
nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.
Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.
Se você quer uma vida, aprenda... a roubá-la!
Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer.
Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso:
algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!
Lou Andreas-Salomé
sábado, 5 de maio de 2012
Atlântida
Olhava para o rosto de um homem que se ajoelhara a seu lado e sabia que, em todos aqueles anos, era isto que teria dado sua vida para ver: um rosto sem sinal de dor, nem medo nem culpa. Na forma de sua boca havia orgulho, e mais: era como se ele se orgulhasse de ser orgulhoso. As linhas angulosas de suas faces a faziam pensar em arrogância, tensão, zombaria. No entanto, o rosto não exprimia nada disso, apenas o produto final desses fatores: um olhar de determinação serena e de certeza, de uma inocência implacável, que jamais pediria nem concederia perdão. Era um rosto que nada tinha a esconder, que não fugia de nada, que não tinha medo de ver nem de ser visto, do modo que a primeira coisa que ela compreendeu a seu respeito foi a perceptividade intensa de seus olhos. Era como se a sua faculdade de visão fosse seu instrumento mais amado, e a prática da visão fosse para ele uma aventura exultante, ilimitada, como se seus olhos concedessem um valor superlativo a si próprio e ao mundo - a si próprio por sua capacidade de ver, e ao mundo por ser ele um lugar tão bom de se ver. Ele a fitava com um leve esboço de sorriso, não com um olhar de quem descobre algo, e sim de quem contempla algo conhecido - como se ele também estivesse vendo algo que esperava havia muito e que jamais pusera em dúvida.
Era este o seu mundo, pensou Dagny, era assim que os homens deveriam ser e encarar suas existências.
Era este o seu mundo, pensou Dagny, era assim que os homens deveriam ser e encarar suas existências.
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segunda-feira, 16 de abril de 2012
Leonoreta, VI
Leonoreta,
fin'roseta,
deixo meus olhos fechados
sobre os acontecimentos.
Não te meta
en gran coita o meu amor:
podem, por todos os lados,
duros, tenebrosos ventos
quebrar muitas tentativas.
Mas, para que eterna vivas,
que é preciso?
Que pensem meus pensamentos.
E entre pólos inviolados,
entre equívocos momentos,
vem e volta a vida humana,
que se engana e desengana
em redor do Paraíso.
Branca sobre toda flor,
a Verônica levanto,
num transparente estandarte:
celebro por toda parte
a alegria de adorar-te
com o meu pranto.
Cecília Meireles
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Queria saber
Hoje não tem estrela no céu. Bateu aquele vento, e por um momento, hesitei em ir ou ficar mais um pouco. Acabei ficando, e me perguntando o que estariam fazendo elas, as estrelas, quando não as vejo.
Mas tolo pensador, noto que sou. Logo realizo que estiveram sempre ali, no mesmo lugar. E vão continuar, mesmo que eu não as veja, reservadas.
Me pergunto, desta vez, se tem consciência de que desejo admira-las. Queria saber. Por que razão não haveriam de ter? Talvez não haja razão que explique.
Para ter sabedoria, não é preciso ter razão, basta sentir. E sábias são elas, as estrelas, que por todo o tempo estiveram em sua incansável vigilia. Inocente, eu, confiando no saber da razão, imaginando que ao longe se escondiam, quando era perto dos meus olhos que as nuvens se acomodavam.
domingo, 19 de fevereiro de 2012
Mulheres
Quem lê Mulheres, percebe uma fria descrição de relacionamentos rápidos e sem muito apego, basicamente sexo. Ora, eu como homem, achei o máximo: Henry, um coroa super cachaceiro e pegador! E realmente é divertido acompanhar o desenrolar, com todas aquelas mulheres de todos os tipos querendo dar umazinha com o tio, que substituia com facilidade o convívio social pela bebida.
Certo dia então, em uma (acalourada como sempre) discussão de bar, comentamos sobre o final dessa história, o qual concordamos ser sem graça, pois o cara termina com uma das mais certinhas dentre as mulheres que conheceu. Aquela que se preocupava com ele, mesmo sabendo que ele saia com outras.
Apesar do personagem masculino, o romance poderia se chamar Homens e Mulheres, pois a faceta do protagonista vale para ambos os sexos. Mesmo conhecido por falar de várias mulheres, um homem, bebidas e ainda com um linguajar vulgar - o que torna a leitura mais interessante -, o romance termina no ápice da pirâmide de Maslow, com o sujeito realizado, escrevendo e bebendo. Quem sabe eu ainda chego neste estado de espírito!?
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Oh, Admirável mundo novo!
Oh, Admirável Mundo Novo! Então é isto que tens a oferecer-me? Homens de roupa cáqui para me servir e limpar as vias pelas quais trafego. Mulheres tratadas sem apego. Uma ocupação sem questionamentos e que eu deva chamar de trabalho, acompanhada da certeza de poder possuir tudo o que quero. Uma vida sem doenças, sem feiura e sem tristeza.
Mas onde está o direito do incerto? Eu o reclamo. Quero o inseguro e o medo autêntico. Quero me apaixonar e sofrer por amor. Quero contornar minhas fraquezas a suprimi-las. Quero sentir o tempo corroer minha pele e orgulhar-me de meus pais. Quero a tempestade para poder gozar da calmaria.
Mesmo que considerado um selvagem, não civilizado, quero não precisar do soma, sentir o sabor e o cheiro, e ouvir a melodia que sempre estivera presente. Nada sintético. Nada de plástico.
Mas onde está o direito do incerto? Eu o reclamo. Quero o inseguro e o medo autêntico. Quero me apaixonar e sofrer por amor. Quero contornar minhas fraquezas a suprimi-las. Quero sentir o tempo corroer minha pele e orgulhar-me de meus pais. Quero a tempestade para poder gozar da calmaria.
Mesmo que considerado um selvagem, não civilizado, quero não precisar do soma, sentir o sabor e o cheiro, e ouvir a melodia que sempre estivera presente. Nada sintético. Nada de plástico.
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