quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Voltando para Casa
Estava então voltando para casa. O dia não tinha sido dos melhores. Nenhuma surpresa, nenhuma novidade. Apenas me arrastava para casa como fizera tantas outras vezes. O céu estava cinzento, e o mesmo vento que fazia umas poucas folhas secas me seguirem pelo canto da calçada ao meu lado também me fez puxar o capuz acima da cabeça e colocar as mãos nos bolsos da calça. Tudo parecia muito calmo. Os carros passavam tranquilamente, numa rua onde parecia não haver buracos. Não estavam buzinando como sempre faziam naquele horário. O botequim caindo aos pedaços pelo qual eu sempre passava em frente me parecia parado, na entrada apenas um velho de pé, com um cigarro na mão, quase sem se mexer. Ao cruzar o sinal, passei por um menino que apontava para frente e puxava a sua mãe. Ele movia os braços, fazia birra, mas não pedia nada. A mãe não lhe dava importância, até parecia mover os lábios, mas não respondia. Até concordei com a cabeça sem ela notar, não havia nada a responder ao menino. Nessa distração, fui surpreendido ao tropeçar em um cachorro deitado no meio da calçada. Abri a boca para gritar mas nada saiu, sentia meu coração batendo forte. Fique paralisado em meio ao susto, não me movi por um instante. Se estivesse no meio da rua, os carros buzinariam ou passariam por cima de mim de qualquer jeito. Então baixei os olhos voltei o olhar para o cachorro. Parecia com mais medo do mim, do que eu dele. Ele movia a boca de maneira estranha ora olhando para mim, ora baixando a cabeça. Um movimento que eu conhecia, como se estivesse latindo, mas sem som algum. Parou por uns segundos, deu uns passos, ainda mancando um pouco, e já se afastando me olhou novamente. Voltou a abrir a boca algumas vezes. Se falasse, estaria com todas as letras me mandando para longe dali, mas era apenas um focinho se mexendo. Com um sentimento estranho, me arrumei sob o capuz e me pus a caminhar rápido para casa. Já havia ficado escuro, e as luzes dos carros ao longe vinham em direção ao meu rosto. Quis correr, mas já avistava o portão de casa. Ainda caminhando tirei o molho de chaves do bolso, que não fizeram o habitual barulho que quatro ou cinco chaves fazem ao se debaterem amarradas entre si. Se debatiam apenas, não emitiam som. Voltei a sentir o coração batendo acelerado. Abri o portão e corri pelo corredor do saguão. O silêncio absoluto seguia meus passos apressados. Nem meus tênis cantavam sobre o chão lustrado. A chave entrou na fechadura da porta com violência. Por um momento achei que aquela chave não tornaria a abrir a porta, pois não me lembrava de ferrolho de porta tão silencioso como aquele. Eu não me sentia bem. Passei pela sala e senti náuseas ao ver o violão imóvel encostado na parede. No quarto me enfiei debaixo do cobertor. Só então percebi que não havia acendido luz alguma dentro de casa. Não seria necessário. Só queria ficar ali coberto, sentindo minha respiração fora de rítmo. Tive a sensação que havia deixado algo importante para trás em algum momento e tive medo. E continuei ali. Imóvel
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