sábado, 4 de maio de 2013

Olhos e Cabelos

E então ela fechou a porta e se foi. Só me olhou mais uma vez e foi. Me deixou sentado no sofá encarando a parede branca. Na companhia de uma música que não conheço. Deve ser o volume que está baixo. Há pouco ela estava aqui, com os mesmos olhos que eu conhecia. Os cabelos também. Quando maquiada não era ela. Também incrível, mas era outra. Mas há pouco ainda era a mesma, os olhos que entravam dentro de mim. E os cabelos que ficavam em brasa quando sob o sol, de um lado descendo pelo rosto, do outro um pouco atrás da orelha.

Aqueles olhos também flamejavam quando queriam. Os olhos com os quais eu conversava. Os lábios se moviam, mas aqueles olhos que me diziam tudo que eu queria saber. Pensava que eram meus aliados, mas nem sempre. Tinham vida própria. Quando ela não dizia nada, os olhos faziam o que sabiam fazer. Era pra isso que estavam ali. Entravam em mim e me desmontavam.

Os cabelos eram atrevidos, se moviam como queriam. Se estivesse maquiada, então tinham que se comportar, fingindo. Deviam ficar desconfortáveis, batendo o pé no chão, esperando a hora de voltarem a ser quem eram. Agora pouco estavam a vontade, fazendo o que queriam por conta própria. Até passarem pela porta.

Os olhos não falaram muito hoje. Estavam calados. Não indiferentes, contidos. Os cabelos não estavam em chamas, mas estavam para lá e para cá. Deviam estar esperando o sol que os fazem acender, e a quem iriam de encontro em breve. Por isso pareciam ansiosos. Foram eles, os cabelos, inquietos, que me disseram que estava na hora de ir. E pela primeira vez vi os olhos concordando, não falaram nada.

E então ela foi, já tem uns minutos. Talvez uma, ou duas horas. E ainda toca a mesma música de quando a porta fechou.