Um clichê neste estilo que era ouvido todos os dias depois da novela. E realmente com razão, uma proeza indiscutível. Agora que carros, motos e mais de 6 dígitos de grana já passaram pelos nossos olhos, a razão de tal proeza ainda é discutível. Por um lado, de luvas vermelhas, amigos que, sem dizer claramente, se auto-intitulavam cult demais para ousarem passar próximos da tevê entre 10 e 10 e meia da noite, e do outro lado do ringue, de luvas azuis, os que desligavam o celular quando o cliché teller brandia seu microfone logo após Paulo Ricardo cantar sua ópera.
Não tenho dúvida que o time cor-de-rubi era a extrema minoria. Disparavam que era um programa sem nenhum fundamento, onde o expectador simplemente perdia seu tempo vendo outras pessoas fazendo nada, e com muito conforto. Acho que havia uma pontadinha de inveja neles. O outro time, enorme como o oceano e silencioso como o céu, como se honrassem a cor da camisa, se contentava em dizer que era o que tinha para fazer em casa depois de um dia duro. De cara, assim como o nome, descordo que seja um programa vazio. Pelo menos o nome foi extremamente criativo. Inspirado em um romance político da década de 40, que fala sobre o fim da liberdade pessoal por conta do totalitarismo e manipulação da verdade sob o pretexto da imagem do Grande Irmão, "aquele que a tudo vê". Ahh! Força o tico e teco aí, há suas semelhanças. Mas também não acho que foi isso que te fez engolir o jantar e ir pra cama ligar a tevê sem tomar banho por várias noites. Há alguma mágica, algo invisível, viciante, e não somente curiosidade de saber quem seria o próximo a sair.
Pelo menos para mim, virou mera curiosidade de saber quem saiu, perguntando para minha mãe no dia seguinte, depois que o tiozão munheca-de-quiabo rodou (a baiana, ui!), o que marcou o fim do BBB 8 e me fez pensar sobre tal mágica. Não é o simples fato de o tiozinho atiçar a pancadaria na casa, caso contrário todos nós leríamos A Tribuna avidamente todos os dias! O fato de ter "minas super gostosas", como no filme "Cara, cadê meu carro" também deixou de ser válido, apesar de ter pesado pro meu lado, pela vontade de ver aquelas mangas maduras implantadas na região toráxica daquela loira. O último fato que me convenceu foi quando o outro tiozinho, o de cabeça pintada, saiu, o que confirma a força da comunidade "bonzinho só se fode".
Concluindo então minha conjectura, acho que todos que assistiam ao programa se identificavam de alguma maneira com os personagens. Sim, digo personagens por que aquilo não é vida real, logicamente. É uma novela do Wolf Maia, ou um filme do Miguel Falabela. Só que os próprios gladiadores que a escrevem. É apenas uma visão simplificada do nosso próprio convívio social, na vida real, a qual nós mesmos escrevemos. Sem percebermos, vemos situações semelhantes às que passamos todos os dias, mas em um cenário e figurino diferentes. Ciuminho, briguinhas bobas, mentiras e panelinhas. Nâo estou falando deles, mas de nós mesmos. Então, deixo meus pratos e talheres sujos na pia, certo de que amanhã de manhã minha mãe me cole no esporro, só pra saber como que vai terminar uma discussão que começou na casa ontem, e não para saber quem vai ganhar a grana.
E aí está toda a mágica: queremos nos ver nos outros! Nos vemos como estrelas nos imaginando se fôssemos o ator ou atriz principal da novela das 8, nossos pais querem que sejamos responsáveis ou que curtamos a vida, assim como eles, queremos chegar na aula na segunda-feira e contar o que aprontamos na micareta do final de semana, algo como contar uma grande aventura narrada pelo personagem central. Enfim, queremos ver a nós mesmos num espelho, e esse espelho no caso é o Grande Irmão, "aquele que a tudo vê", mesmo que o seu campo de visão seja apenas a nossa própria vida, limitado aos nossos relacionamentes mais conturbados. Vale lembrar que se olhar no espelho e ver o mocinho da história não tem mais graça. O bom mesmo é ser o vilão, que arruma confusão, bate de frente com todos e expõe tudo o que pensa sem papas na língua. Acho que é por isso que nas novelas quando o vilão morre, o mocinho fica sem graça, e a trama se adianta ao fim, num melancólico "e viveram felizes para sempre".
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